Skip to main content

Cerimônia de Celebração de Vida

Amigos e familiares, em nome de toda a família, agradecemos a sua presença neste evento de Celebração de Vida de Flavia Juliana Pinheiro Nastacio.

Flavia me deixou apenas um pedido, o que não incluiu este evento. Procurei a opinião entre familiares e amigos sobre um formato que fosse mais apropriado, finalmente decidindo por algo que não exigisse sobriedade ou cerimônia.

Esse é um pequeno exemplo de que embora o objetivo principal desse evento seja o de celebrar a vida de Flavia, também é um marco de transição.

Essa transição é facilitada pelas inúmeras orações por sua alma e pelos votos de conforto para os familiares daqui e do Brasil, que tanto sentem sua falta neste momento. Acreditamos firmemente no afeto, alcance e sabedoria embutidos nessas orações. Somos eternamente gratos.

Embora este evento não seja de cunho religioso, aponto para a frase “Seja feita a vossa vontade.” Muitos atribuem um significado de resignação diante da vontade divina. Não é. A vontade divina se realiza em horizontes que transcendem o espaço e o tempo.

Deus, em sua infinita sabedoria, não nos permitiu vida eterna na Terra.

Deus, em seu infinito amor, acolhe a todos — e Flavia está a seu redor.

Diante dos limites de nossa permanência na Terra, procuramos por continuidade.

Na ausência de um ente querido, essa continuidade se realiza pela transição de presença em nossas vidas para presença em memória.

Mas presença em memória não se forma pelas palavras que dispenso aqui, pelas fotos que ornamentam os corredores desta casa ou por outros símbolos de nossa existência.


Memória são as histórias que ocupam a distância entre as imagens paradas no tempo.

Memória não é apenas o que fizemos.

Memória é o que faríamos.


Uma poeta de grande sensibilidade uma vez escreveu: “O universo é feito de histórias e não de átomos.”

Nossa existência não é definida por momentos, mas pelos eventos que ligam esses momentos.

Nossa existência é definida por histórias.


Nossas histórias se alinham ao longo do tempo, não na fronteira onde se encerra uma existência e se inicia outra.

Nossas histórias se entrelaçam, se influenciam, e se separam.

Não lamentemos a separação. Agradecemos o entrelace.


É meu privilegio e responsabilidade recontar sua história.

Começarei pelo fim.


Harmonia

Flavia teve um grande objetivo antes de partir.

Para ela era muito importante perdoar qualquer forma de mágoa que tivesse com o mundo e consigo mesma. O perdão ao próximo lhe vinha de forma fácil e natural, mas não o interior.

Para os que não acompanharam a fase final da jornada de Flavia, a doença a acompanhou por doze anos. As dificuldades se intensificaram nos últimos desses anos. Flavia sempre disse que não se definiria pela doença. Ela ouvia com grande consternação qualquer forma de elogio a sua "força" em enfrentar o diagnóstico e seus sintomas.


Mas estamos aqui para celebrar sua vida e não para reviver suas dores. Por esse motivo não citarei detalhes de sua condição além do necessário para que entendam o quanto Flavia valorizava o bem-estar dos que estavam ao seu redor.

Em ato de reconciliação com sua dor, Flavia desenvolveu a convicção de que sua doença partia de seu íntimo. Entretinha esse sentimento de forma abstrata e sem foco em algum evento ou circunstância. Eu ouvia seus argumentos em silencio. Embora não concordass com o alto-diagnostico de sua causa, mantinha o respeito à enormidade da responsabilidade que Flavia assumia para si.

Procurou ajuda nos livros, com temas variando de ajuda espiritual até os mais concretos de psicologia e medicina. Não foram poucos — conto várias caixas com livros, manuscritos e materiais espalhados pela casa.

Flavia também procurou sua paz interior com treinamento formal em disciplinas de psicologia e terapia familiar.


Grande parte de seu objetivo incluía ver nossos filhos crescidos e orientados de forma positiva.

O restante, secundário mas ainda muito importante, era descrito como reforma intima e paz interior.


Próximo das ultimas semanas, enquanto alternava entre a lucidez que nos iluminava por algumas horas do dia e as longas horas de repouso necessárias para reunir novas forcas para o dia seguinte, Flavia me disse que não havia mais nada que precisasse aprender ou perdoar nessa vida.


Flavia estava em paz.

E queria que soubessemos que finalmente se encontrava pronta - sem arrependimentos.


Escolhi compartilhar essa informação com dificuldade e dúvida, mas achei importante que os amigos e familiares encontrassem conforto em saber que embora Flavia não tenha vencido a doença, a superou como difícil obstáculo em sua luta maior.


Nascimento, Infancia e Juventude

Flavia nasceu no dia 9 de julho de 1975, na cidade de Boa Esperança, interior de Minas Gerais - Por motivos burocráticos, sua data de nascimento oficial ficou registrada como dia 12 de Julho.

Filha de Antônio Augusto Pinheiro (em memória) e Ana Maria Costa Pinheiro.

Irma de Leila, Galvao (em memória), Guilherme, Gleida, Silvania, e Cesar.

Poucos anos depois, por volta de 3 anos de idade, perderia aquele que seria seu irmão mais novo, Flavio, antes do parto.


Faço uma pausa no relato histórico para agradecer Seu Antônio e Dona Ana pelo imenso presente que mais tarde faria parte de nossas vidas. Agradeço também aos irmãos e irmãs por estarem presentes em sua vida ao longo dos anos. Flavia compartilhava histórias de alegria e, em alguns casos, preocupações. Agradeço em particular a Silvania, que me ajudou a preencher varias lacunas com fatos e fotos.


Faço outra pausa aqui para registrar meus sentimentos à Dona Ana por mais uma perda inestimável, em imensa inversão da ordem da natureza. Entendo de onde vinha a força de Flavia.


Ainda muito pequena, quando sua mãe enfrentou longo tratamento médico, Flavia passou alguns tempo com a família de sua tia Vera em Nova Odessa, no interior do estado de Sao Paulo.

Em 1980, sua família mudou-se para Nova Odessa.

Um pouco mais tarde, mudaram-se para a cidade vizinha de Americana, onde viveu a maior parte de sua infância e adolescência.


Para os que não conhecem a história de Americana, em uma combinação de destino e curiosidade histórica, foi fundada por imigrantes vindos do sudeste americano apos a perda da guerra civil. Não em sua maioria, mas muitos desses imigrantes chegaram do estado da Carolina do Norte, para onde Flavia se mudaria mais tarde e onde passaria maior parte de sua vida.


Dona Ana e Tia Vera eram especialistas na costura, não apenas como dote caseiro, mas profissional.

Como resultado, Flavia se vestia de forma elegante e fora dos padrões da pouca idade, o que também desenvolvia seu gosto pela expressão em forma de arte e beleza.

Mais tarde, praticou balé por alguns anos, fase que exigia grande dedicação e esforço físico.

Também adorava festas. Muitas das fotos que tenho desse período mostram Flavia em bailes de Carnaval em sua cidade natal de Boa Esperança ou entre as amigas. Alem das fotos, me contava dos bailes nos finais de semana e das grandes dores de cabeça que criava para Dona Ana e sua vizinha, Bel, mãe de sua inseparável amiga de infância, Tatiana, com quem manteve contato até seus últimos dias.


Não me alongarei mais nessa fase por dois motivos: Para brevidade desse evento e por ter juntado os fatos essenciais que definem os próximos estágios de sua vida.


Flavia era de beleza angelical e enorme sensibilidade.

Eu disse há pouco que nossas histórias se entrelaçam.

É no entrelace de sua história com sua família numerosa e vibrante que Flavia desenvolveu sua grande apreciação pela celebração da vida e seus eventos.


Idade Adulta, Casamento e Maternidade

Nos conhecemos em 1993, em Americana.

Flavia havia acabado de completar 18 anos.


Nosso namoro seguiu até 1997, quando consegui meu primeiro emprego, na IBM Brasil. Decidimos que estávamos prontos para seguir a vida juntos.

Em cerimônia simples, ministrada pelo pastor Sergio, recitamos nossos votos.

No dia que Flavia completava 22 anos, estávamos casados.


"...na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza..."


O dia era 12 de julho de 1997. Data oficial de seu aniversario.


Durante os próximos 28 anos, testaríamos todos os extremos desses votos, mas não em medidas iguais.


Houve mais alegria, mais saúde, e mais riqueza.


Faço mais uma pausa aqui para agradecer, em nome do casal, a meus pais por ceder nossa primeira moradia em Americana, um pequeno apartamento que haviam construído para facilitar o início de minha vida adulta, quando ainda não conhecia Flavia.


Fomos imensamente felizes nessa fase de nossa vida. Confesso que gostaria que tivesse durado mais.

Essa fase foi interrompida em 1999, após o fechamento de parte das atividades da IBM Brasil, de onde surgiu o convite para a transferência para o estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos.


Chegamos aos EUA no início de Marco de 1999.


Alugamos apartamento na cidade de Morrisville, onde planejávamos ficar por seis meses até voltar para o Brasil.

Nunca voltamos.


Criamos muitos amigos. Brasileiros em sua grande maioria. Flavia nao tinha reservas contra qualquer nacionalidade, mas sempre observava a enorme dificuldade com a língua.

Sua rede de amigas crescia tanto que em algum momento comecei a me apresentar em alguns desses círculos como "o marido da Flavia." Mais do que a credencial ancorada em seu nome, essas introduções tinham a vantagem de render imediatos sorrisos e facilitar os primeiros contatos.


Em agosto de 2000, nos mudávamos para nossa primeira casa, na cidade vizinha de Apex, onde planejávamos formar nossa família.

Com alguma demora, mas com imensa alegria, recebemos Andrew e Eric em dezembro de 2004. O parto fora longo e difícil.


Flavia tinha 29 anos e após espera ao longo dos anos, finalmente era mais do que esposa.

Era mãe.


Dedicou-se totalmente para que todos fossemos felizes. A preparação e formação do lar foram tratados em cada detalhe, mas o foco era realmente no lado humano, com Andrew e Eric sendo amados de forma individual e especial.

Flavia não media esforços para garantir que a família estendida no Brasil participasse em nossa alegria. Viajaria para o Brasil com eles ainda muito novos para que sua mãe os conhecesse em pessoa.


Como disse uma de suas sobrinhas: "esteve longe, mas esteve presente."


Embora com as "mãos cheias" com dois gêmeos, deixamos em aberto a possibilidade de termos mais filhos, algo que parecia cada vez improvavel a cada ano.


Para nossa grande alegria, recebemos Arthur em novembro de 2007. Nessa fase eu já' dividia grandes responsabilidades no cuidado com Andrew e Eric, permitindo que Flavia dedicasse sua atenção ao aumento do lar para sua chegada.


Mais tarde, entendi que Flavia via o aspecto exterior de duas formas. O primeiro era a forma direta que eu enxergava, como um cartão de visitas para os que estivessem ao nosso redor. O segundo, mais profundo, como ancora para os momentos em o lado interior estivesse em mau momento, como referência para que os filhos entendessem que alguém se importava com eles.


Flavia amou Andrew, Eric, e Arthur mais do que tudo em sua vida. Embora viesse a sofrer grandes dores no corpo mais tarde em sua vida, seus momentos de maior preocupação se revelavam em nossas conversas quando achava que havia lhes faltado em algum momento.


Ao mesmo tempo, os seus momentos de maior alegria eram quando os três irmãos estavam juntos, conversando, ou brincando juntos. Andrew, Eric, e Arthur não digo isso como para que se obriguem a ser unidos ou que tenham atividades conjuntas - sei que são adultos diferentes e com rotinas diferentes.

Digo isso para que saibam que deram a sua mãe muitos momentos de imensa felicidade ao longo dos anos.


Para finalizar o relato dessa fase de sua vida, encerro com uma frase que Flavia usou muito ao longo dos anos nas intermináveis disputas por escolhas de guarda-roupa antes de pequenos ou grandes eventos:


"Filho meu não anda mau arrumado."


Na superfície, poderia estar falando sobre roupas, mas estava ali também a metáfora para noções de autoestima e cuidados consigo mesmo. Mais tarde, parcialmente resignada pela perda de sua influência nas escolhas de suas roupas - natural de meninos virando adultos - essa frase viraria "você tem que gostar você."


Mais uma vez, a memória se encontra na distancia entre as palavras.


Caridade e Esforço

Volto no tempo ao final de 2015, onde receberia o primeiro diagnostico de sua doença. O prognostico era encorajador - sobreviveria - mas difícil. Extremamente difícil.


Entre 2016 e 2018, em meio `a cirurgias, radioterapia, e sessões de quimioterapia, aprofundou-se nas atividades do grupo de estudo e orações que formara em 2014. Junto com colaboradores e organizadores, estendeu as atividades desse grupo para pequenas salas alugadas no centro de Apex.


Em 2017, como extensão dos trabalhos desse grupo, iniciavam trabalho de caridade, fundando o braço local do grupo Auta de Souza. Pela diretriz desse grupo, de certo alcance no Brasil e outros paises, o grupo visitava bairros nos finais de semana para coletar doações de porta-em-porta. Mais tarde, visitavam outros bairros mais simples onde distribuíam as doações da mesma forma, de porta-em-porta. Dividiam também orações com as famílias onde o momento permitisse.


Alistou a ajuda de Andrew e dúzias de outros colaboradores, permanentes e temporários. Continuaria essa atividade por muitos anos, dividindo sua atenção entre o lar e à organização dos trabalhos.


Em 2018 realizava o sonho de atender a evento comemorativo desse grupo em Portugal.


Foi por volta dessa época que recebia o diagnostico de remissão da doença, o que serviria de grande alívio para todos.


Em 2020, mesmo com a pandemia, converteu os grupos de estudo para eventos online e continuaram o trabalho semanal de coleta e distribuição de alimentos e roupas. Em algum momento, o volume de doações cresceu a ponto de precisarem alugar um espaço dedicado ao seu armazenamento temporário. Flavia tinha orgulho desse trabalho.


Em 2021, a doença voltava de forma permanente e definitiva.


Em 2022, Flavia investiu grande parte de sua atenção aos estudos de Constelação Familiar, disciplina de terapia focada no entendimento do relacionamento e posicionamento familiar. Obteve certificação e formou uma pequena prática virtual com outros graduados ao redor do mundo. Flavia organizava as atividades desse grupo e conduzia sessões quando sua saúde permitia.

Cuidou de sua saúde de forma disciplinada. Entre 2022 e 2025, adotou regime estrito de dieta saudável e atividade física. Surpreendia médicos e amigos com sua energia e vitalidade.

Em meio a novas sessões de radioterapia e quimioterapia, Flavia continuou os trabalhos de caridade e apenas os interrompeu no início de 2023, quando não era mais possível manter o esforço físico e mental necessário para liderar o grupo e conduzir suas atividades.


Os Últimos Meses

Flavia nunca viveu em meios termos.

Durante seu tratamento, quando sua equipe médica lhe prescrevia grandes doses de analgésicos para controlar a dor, Flavia procurava balancear a dor com a lucidez. Alguns dos remédios lhe faziam dormir por boa parte do dia e, por isso, os evitava dentro do possível.


Em abril de 2025, Flavia decidiu organizar grande celebração de seus 50 anos de idade, que se realizaria no mês de agosto, quando sua mãe e irmã pudessem estar presentes. Como era de seu estilo, planejou a festa em grande detalhe, com belíssima decoração, música e alegria.

Nesse dia, Flavia estava extremamente feliz. As memórias cercando esse evento foram certamente especiais (fotos do evento.)


Em novembro, com os familiares de volta ao Brasil, a doença progrediria de forma acentuada.

Flavia queria muito celebrar esse Natal.

Com ajuda de várias pessoas e uma enorme quantidade de cola quente dispensadas por várias superfícies da casa e de seu vestuário, completou as decorações de Natal.

Na noite de Natal, com a saúde permitindo apenas poucas horas acordadas, lhe perguntamos se preferiria cancelar o evento. Flavia recusou.


Arrumada como sempre, vestindo roupas da ocasião, pousou para fotos com familiares e convidados.


Nos próximos dias, sua nova rotina de longas horas de sono durante o dia se prolongaria até o dia 6 de janeiro. Com Flavia finalmente repousando após fortes medicamentos, e atendendo a tradição familiar de aguardar ate' o final do dia de Reis, apaguei as luzes da arvore de Natal. 

Como atividade rotineira ao longo dos anos, repeti para mim mesmo: "e se encerra mais um Natal."

Flavia partiria durante a manhã do dia 7 de janeiro de 2026.


Adiante

Os fatos que compartilhei são pequenos exemplos do amor que Flavia cultivava pela vida e pelos que estavam a seu redor.

Flavia não queria que se preocupassem com sua saúde, mas que lhe dessem apoio em suas prioridades.

Flavia viveu uma história que conecta várias comunidades, como filha, irmã, esposa e mãe. Se dedicou a todos, doou seu carinho, aprendeu e educou. Deixa trabalho bonito de caridade, agora executado e dirigido por seus antigos colaboradores.

Mencionei que Flavia me fez um único pedido a ser cumprido após sua passagem. Pediu que depositasse suas cinzas na serra de Boa Esperança, sua cidade natal.


Acima de tudo, Flavia deixa comigo maravilhosos presentes na forma de três meninos, agora crescidos. Foram criados com seu carinho, zelo, e exemplos de força de vontade.


Amigos e familiares, Flavia nos deixou um exemplo maior:

que a dor não nos impede,

que a saudade não nos define,

e que nosso objetivo não é apenas sobreviver —

mas superar as dificuldades para viver com alegria e amor pelos que nos cercam.


Obrigado a todos.


Obrigado, Flavia.

---





9 de julho de 1975
07 de janeiro de 2026

Comments

Popular posts from this blog

Ceremony of Celebration of Life

Friends and family, on behalf of our entire family, we thank you for being here today at this Celebration of Life for Flavia Juliana Pinheiro Nastacio. Flavia left me only one request — and it did not include this gathering. I sought the counsel of family and friends about what format would be most appropriate, and we ultimately decided on something that would not require solemnity or rigid ceremony. This is a small example that while the primary purpose of today's event is to celebrate Flavia’s life, it also marks a transition. That transition is eased by the countless prayers offered for her soul and by the words of comfort extended to family here and in Brazil, who miss her deeply in this moment. We firmly believe in the love, reach, and wisdom carried within those prayers. We are eternally grateful. Although this is not a religious service, I want to point to the phrase, “Thy will be done.” Many interpret it as resignation before Divine will. It is not. Divine will unfolds acro...